Rota dos Baobás - Bolívia, La Paz, Tocaña
Esse encontro começou em meados de 2010 quando TC visitou a Bolívia no contexto do Cultura Viva Comunitária, aí já estava desenhando a Rota dos Baobás. Através de conexões que o Teatro Trono (El Alto) tinha com comunidades afrobolivianas, TC viajou até a região Nor Yungas para conhecer a comunidade Mururata. Lá conheceu Don Julio Piñedo, um senhor cocalero que possui a descendência de realezas do Congo que, com sua esposa Angelica Piñedo e seu filho Rolando Piñedo, forma uma família que carregam uma importante história na afrodiáspora. Depois de alguns anos voltou lá com seu filho Ayo Shani, plantando muitas sementes de Baobá. Esse foi um importante momento para falar sobre a luta afrodiaspórica nas Américas. Passado os anos até o presente seu contato com o território Mururata foi pouco, no entanto as contações de história inspirou duas pessoas indígenas, Tania (Aymara) e Nico (Guarani) – e que fazem parte da Tainã –, a levar um Baobá para essa comunidade. A viagem de ônibus foi cansativa e complicada por levar dois jovens Baobás por terra. Chegando em El Alto já se percebeu que o frio dessa região, tão marcada pela presença Aymara, fez com que os Baobás sentisse a necessidade de estar para dentro de casa nas frias noites que passaram por lá. Ali em El Alto conheceram a Casa Cultural La Altusa, onde Lenia os recebeu com muito carinho, além de compartilhar o contato de Edgard Gemio. um jovem que cuida do espaço Cultural Afroboliviano Tocaña. Apresentou algumas memórias da comunidade, como a história do sequestro feito pelos espanhois trazendo africanos para serem escravizados nos Américas e a cultura preta que existiu e existe ali desde então. Sentindo essa conexão ancestral ali foram deixados os dois Baobás. O tempo passou mas a conexão continuou, sobretudo com Nenrry, uma importante voz feminina da comunidade e, junto a TC e Tania, marcaram o plantio do Baobá junto às comunidades vizinhas. Logo saíram no dia 15 de Agosto em direção a El Alto: TC, Nico, Tania, sua mãe Loly e seu avô Angel. Ali em El Alto foram muito bem recebidos pela comunidade do Espacio Cultural Waliki. Entre elas: Juan Pablo, Vivi Mamani, Gaby, Carlos Macusaya e Teodocia Tarqui; que fizeram uma comida tradicional, Oca com carne de rês e quínoa. Seguiram para a casa de Tio Fabio onde pernoitaram. No dia seguinte seguiram viagem em direção a Coroico e depois Tocaña, juntamente com um pessoal do Waliki, Vivi e Gaby, que toparam fazer registros do encontro, firmando uma parceria entre as redes Tainã e Waliki. Chegando lá, no dia 16, foram recebidos pelo povo da comunidade, sobretudo por Nenrry, que organizou quartos para a estadia. Pela noite houve uma festa que aconteceu na quadra da escola da comunidade e nesse momento os mais velhos já perceberam a presença de TC. Algum dos nomes dessas pessoas: Teofilo Pérez, Nicanor Gemio, Roberto Zabala, Martín Marín, Francia Marin, Fatima Zabala (filha de Dona Marta Zabala), Paulina Vázques e Benancia Zabala. No dia 17 seria o plantio, mas as fortes chuvas impediram que isso fosse possível. Em vez disso foi feito uma troca de saberes em relação aos cuidados com o Baobá. Um momento importante foi quando uma das lideranças, um senho chamado XXXX, pergutou a TC: - Que beneficio essa planta vai nos trazer? TC prontamente respondeu: - Essa planta nos reconecta com nossa mãe África. Esse senhor fez uma cara de espanto ao entender que aquilo era algo tão profundo e conectado com sua história. BaobÁfricanizando as Américas!!! Depois desses cuidados formou-se uma roda para a troca de vivências, conversaram sobre os problemas estruturais que os povos da terra enfrentam desde a colonização. Isso foi um momento muito importante que apontou desde os problemas da imposição de um modo de vida que não respeita os conhecimentos ancestrais, o alcoolismo nas comunidades, a apropriação de conhecimentos das tecnologias atuais e necessidade de reparação histórica. Depois fizemos uma batucada com La Saia Afroboliviana, uma das manifestações negras dessa região. O Baobá seguiu no meio da roda recebendo aquele axé dos cantos, da dança e dos tambores, além do fato que TC dançou com a jovem Fatima Zabala, filha da Doña Marta Zabala, uma matriarca que já se encantou e é possível ver um registro no Baobáxia dela com seu facão e TC na quadra da escola da comunidade. Finalizada a batucada, houve um saboroso almoço comunitário com fricasé (comida típica Boliviana com carne de porco, chuño e milho branco andino) preparado pelas matriarcas, dando energia para TC compartilhar com mais pessoas que chegaram, a importância daquele momento e os cuidados com o Baobá. Ao final foi presenteado à comunidade 21 sementes de Baobá, que passaram pela mão de todas as pessoas que ali estavam, cada uma trazendo seu axé, ao final deixando dormir na água para o próximo e último em Tocaña. No dia seguinte, pelas 10h da manhã, após a aula da Unidad Educativa Tocaña, as crianças saíram e foram na quadra da escola encontrar para plantar as sementes que dormiram no dia anterior. TC falou sobre a importância de cuidar das sementes, da terra e do futuro cantando: Tô voltando pra casa Com um pé de Baobá Tô voltando pra casa Com um baobá O Baô babá O Baô babá O Baô babá O Baô ba Baobá O sentido da cantiga foi traduzido por Tania para as crianças e com essa canção cada uma delas (Neythan Payi, Joana Zabala, Ivana Ortuño, Indira Giraldi, Liam Condori, Mijael Justiniano, Gael Zabala, Farid Nova) que estavam ali semearam ao todo 21 sementes de Baobá. Ao final todas as crianças abraçaram a TC e juntos fizeram a saudação cantada Yo, yo, yo! Depois voltamos para o Centro Cultural e Edgard nos apresentou um pouco a cultura Afroboliviana através do trabalho museológico que desenvolveram ao longo dos anos, apresentando os tambores, as roupas utilizadas, instrumentos de trabalho, arquivos históricos etc. Ao final chegamos em um lugar onde apresentaram o trabalho de cafeicultura da comunidade. Nesse dia não possível plantar o Baobá por conta da constante chuva dos dias, também não foi possível voltar à La Paz porque a cumbre (região mais alta e de transição para chegar dos yungas à La Paz) estava sem passagem por conta das fortes nevascas. Por isso dormiram em Coroico para no próximo dia voltar. Saíram às 8h e às 11h estavam próximo ao ponto mais alto do caminho (4900mt), porém os carros permaneciam parados por conta da via congelada. Por conta disso chegaram por volta das 16h em La Paz e consequentemente TC e Tania perderam seus vôos. Somente pela madrugada do dia 20 foi possível TC embarcar em direção ao Brasil. Semanas depois foi dada a notícia de pelo menos 15 baobás germinados, trazendo muito axé para a comunidade Tocaña. E foi dada a responsabilidade das pessoas da comunidade espalhar os Baobás para outras comunidades irmãs. BaobÁfricanizando as Américas!
